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publicado por Justiceiro, em 17.08.11 às 19:23link do post | | | favorito

 

Depois de alguns acontecimentos (recentemente fui entrevistado pela agência noticiosa Lusa para prestar o meu depoimento sobre a descriminação exercida pelas Testemunhas de Jeová aos seus ex fiéis- entre outros- mas sobre isso, falarei mais tarde, noutro post), achei que não faria mais sentido manter-me no anonimato e que todos os que lêem este blogue, deveriam saber na verdade, quem se esconde por trás do mesmo. Foi quase há 2 anos que aceitei o repto de alguns amigos e familiares de criar este blogue. No início não sabia quanto tempo o mesmo ficaria no ar, por achar que nunca teria matéria para escrever… Os dias, os meses foram passando e verifico agora que não escrevo mais, por falta de vontade da minha parte.

 

No início desta aventura mal sabia qual nome a dar a este blogue, não acreditando muito na sua continuidade. Mas veio-se a revelar totalmente o oposto. Ao fim de pouco mais de um ano de existência, vi este mesmo espaço ser destacado pela equipe do Sapo (aqui), dando-me assim algum animo para continuar. Este lugar serve para mim como uma espécie de diário pessoal, onde falo de tudo um pouco, mas geralmente em assuntos do meu interesse e que de uma ou outra maneira me marcam ou marcaram... Quem é mais observador, verificou que nos primeiros tempos de vida do blogue, eu falava de um amigo (o meu melhor amigo), e de algumas das suas “façanhas” com membros da sua família… Recordarão as ocasiões que comento o tratamento que lhe é dado pelos seus pais, irmão e todos os seus amigos de infância… Relembrarão que o principal tema de conversa do meu blogue é religião. Decidi que hoje contaria toda a verdade sobre essa pessoa. Não sei muito bem porque ainda não o fiz. Talvez por vergonha ou medo de o prejudicar ainda mais…

 

Na realidade quando me refiro a esse amigo, estou a falar da minha pessoa. Desde a minha nascença e até aos trinta e três anos de idade, fiz parte de uma dominação religiosa chamada “Testemunhas de Jeová”. Cresci no meio de uma doutrina bastante severa, onde tudo é feito para não haver lugar a dúvidas, e onde as perguntas não são bem aceites. Desde a minha mais tenra infância fui obrigado a aceitar tudo o que ouvia como sendo a única verdade suprema, vinda directamente de Deus através do seu representante aqui na terra. Esse representante dá pelo nome de Corpo Governante (conjunto de pessoas sediadas em Brooklyn, Nova York, com autoridade mundial sobre todas as Testemunhas de Jeová). Não era para mim particularmente difícil acreditar em todas as doutrinas Jeovistas, visto estar submetido a elas desde sempre e não conhecer mais nada a não ser as publicações editadas pela Watchtower, ou Torre de Vigia (designação legal das Testemunhas de Jeová), tais como as conhecidas revistas “A Sentinela” e “Despertai” entre outros. Qualquer outra leitura com conotação religiosa ou filosófica é simplesmente proibida, podendo dar origem a desassociação (expulsão).

 

Os anos foram passando e cada vez estava mais familiarizado e enraizado com aquilo a que as Testemunhas de Jeová chamam de “A Verdade” (conjunto de crenças dadas por Deus ao seu povo para os orientar). Tive uma vida bastante activa no seio deste grupo religioso. Todas as Testemunhas de Jeová são orientadas, compelidas a preencherem mensalmente um certo número de horas na chamada “pregação” de porta a porta, e eu não era excepção. Se tal requisito não é atingido durante um período determinado (poucos meses), os prevaricadores são rotulados como estando fracos na fé, como sendo presas fáceis de Satanás e nos casos onde a pessoa não atinge a carga horária imposta durante muitos meses consecutivos, então essa mesma já era tratada como estando debaixo do domínio do Diabo… Não querendo pertencer a nenhum destes grupos, todos os domingos, fizesse sol ou chuva, lá ia eu pregar a palavra do Todo-Poderoso. Como todas as Testemunhas de Jeová eu tinha o meu tempo preenchido.

 

 À Segunda-feira estudava com os meus pais um pequeno livro editado pela Sociedade Torre de Vigia. Na Terça-feira voltávamos a estudar o livro mas desta vez com um pequeno grupo de outras Testemunhas. A duração dessa reunião era de uma hora. Na Quarta-feira, os meus pais e eu, recapitulávamos em casa, o que iríamos ouvir na reunião de quinta. Quinta-feira reunião de duas horas… Sexta era o único dia em que não tínhamos de estudar pois não havia reunião (culto) no Sábado. Chegava o Sábado e por vezes eu tinha de ir pregar, pois ainda não tinha atingido as horas necessárias estipuladas pela Sociedade. Mas Sábado também era o dia de estudarmos em família a revista A Sentinela. Domingo é o dia mais importante para todas as Testemunhas de Jeová. De manhã saída obrigatória para pregar “as boas novas do reino” (porta a porta), de tarde reunião de duas horas juntamente com todos os irmãos de fé. Escusado será dizer que toda a Testemunha de Jeová cuidadosa, tem o seu tempo completamente absorvido. Toda esta maneira de proceder tem uma razão de ser. Estando ocupados com as supostas “coisas sagradas”, não teríamos tempo para pensar ou de nos distrairmos com as coisas “inúteis do mundo”. A repetição contínua, e prolongada das mesmas palavras e dos mesmos termos, são conhecidas como técnicas de controlo mental. A minha mente foi formatada desde a mais tenra idade para acreditar cegamente em tudo o que ouvia. Durante anos, semanas e de uma forma diária, os meus ouvidos perceberam sempre a mesma realidade, de uma maneira consecutiva sem ter a hipótese de poder conhecer outros factos.

 

Os anos foram passando e a minha fé foi aumentando até chegar ao ponto de me baptizar. O gesto do baptismo entre as Testemunhas de Jeová é encarado como uma oferta a Deus, a dedicação total a uma Divindade Superior. A partir daquela data a minha vida pertencia a Jeová. Só bem mais tarde é que percebi o quão errado eu estava… A minha existência não foi dedicada a Deus mas sim a uma organização sectária e tirânica. Toda a minha vida foi regulada ao mais ínfimo pormenor pelas doutrinas Jeovistas. Tudo o que eu fazia não podia ser contrário às leis de Deus (leia-se da organização), sob pena de estar a pecar contra Ele, e isso era o que mais temia…Hoje com algum recuo, verifico como essa seita controla e consegue de uma forma simples manobrar as vidas dos seus súbditos. Nada é deixado ao acaso. Além das “mil e uma” regras de conduta, chegam ao cúmulo de controlar a maneira de vestir, ou até mesmo um simples corte de cabelo.

 

Como pode um povo com imensas proibições (ver aqui) dizer e fazer crer que são felizes? Como pude eu estar durante mais de 30 anos sujeito a tais regras sem nunca questionar nenhuma e achar que tudo era normal e para o meu próprio bem?

 

Talvez para fugir da educação rigorosa dos meus pais e como é hábito na grande maioria dos jovens Testemunhas de Jeová, casei muito cedo. Foi com apenas 21 anos que dei o nó com outra (ainda mais) jovem, também ela Testemunha de Jeová (como não poderia deixar de ser!). Não estava minimamente preparado para dar esse salto na minha vida. Ao fim de 12 anos e depois de uma fase muito complicada, decidimos por término ao nosso enlace. Como o divórcio não é permitido entre as Testemunhas de Jeová, fui desassociado. De nada serviu os mais de 30 anos de bons e leais serviços em favor da Watchtower. Passei de um dia para o outro e como se diz na gíria, de (literalmente) “bestial a besta”. Todos o que eu conhecia até a data, passavam por mim agindo como se eu fosse um mero estranho. Aqueles que foram até ali meus únicos amigos (as Testemunhas de Jeová são ensinadas a não fazerem amizades fora do seu circulo, tratando todos os que não são da sua crença como “pessoas do mundo”), simplesmente não me reconheciam e para eles, eu sou um adorador do diabo. Existia ainda aqueles que me olhavam com ar de superioridade e nojo. Todo este comportamento me incomodava e me magoava, mas mesmo assim, eu julgava que era o que havia a fazer, pois tal era a vontade de Jeová. Os meus pais embora nunca tivessem deixado de me falar (conforme ditam as regras Jeovistas) não estavam à vontade com a minha presença. O tratamento não era o mesmo. Nunca mais tive o prazer de ter uma refeição com eles. Desde que fui expulso, não sei o que é um almoço ao domingo (ou qualquer outro dia), a volta da mesa, discutindo de tudo e de nada (a vida faz-se destas pequenas coisas). Tenho saudades destes pequenos momentos…

 

Fui proscrito da seita porque não mostrei arrependimento e não quis voltar. Devido às suas leis internas, todos os membros da organização são obrigados a deixar de conviver comigo, afastando-se de mim, virando-me as costas, agindo como que se eu fosse possuidor de alguma espécie de doença contagiosa e qualquer tipo de contacto pode ser fatal. Um simples “olá” é tido como uma possível reconciliação e tal comportamento é passível de expulsão. Graças a essas leis não Bíblicas, saídas da cabeça de alguns iluminados, os meus próprios pais deixaram de ter um relacionamento e convivência normal e sadia comigo, tentando evitar-me ao máximo só falando comigo em casos pontuais. O culminar de todas essas “amorosas” leis internas, foi quando decidi casar e onde não pude ter o prazer da presença dos meus pais, nesse que foi para mim, um dia importante… 

 

Sentia-me culpado por ter deixado a verdadeira organização de Deus e por ter toda a gente contra mim. Estava sozinho, sem ninguém, sem família e sem amigos… Pensei seriamente em voltar para poder ter novamente um contacto normal com os meus pais, e os meus amigos…


Mais tarde conheci aquela que viria a ser a minha esposa. Foi com ela e graças a ela que consegui pensar de maneira diferente e ter outra visão do “mundo exterior”. Ela teve uma educação católica, com uns pais que sempre a apoiaram e que lhe proporcionaram tudo o que não tive. Ensinou-me o gosto pela leitura e pelo conhecimento. Como a área dela era a cultura, falava-me de temas que nunca tinha ouvido até a data. Gostava de lhe fazer perguntas e quase sempre obtinha as respostas. Ficava fascinado com as suas narrações sobre determinada matéria. Afinal, existia mundo fora da Organização de Jeová…


Por incrível que possa parecer, nunca na minha vida tinha lido um livro. Até a data a única literatura que lia era apenas os manuais editados pela Watchtower. Foi estranho contactar com um mundo que eu desconhecia. Comecei a descobrir um mundo novo, um mundo que me foi negado e escondido. Sempre me ensinaram que tudo era escrito para nos desviar da “verdadeira organização de Deus”, uma armadilha de Satanás o Diabo. Nunca a minha esposa me falou de religião, ou sequer criticou alguma vez as doutrinas Jeovistas (a não ser sobre as famosas transfusões de sangue). Sempre estive à vontade para acreditar (ou não) no que quisesse. Não existia portanto qualquer tipo de pressão por parte dela. Cada vez que o assunto era religião, quem tentava impor qualquer tipo de crença era eu. Embora tivesse sido desassociado, ainda acreditava cegamente que as Testemunhas de Jeová eram a única religião verdadeira. Mais de 30 anos de doutrinas Jeovistas não podiam ser apagadas de um dia para o outro… Recordo-me das inúmeras vezes que acordava sobressaltado, chorando sufocadamente por ter tido um pesadelo sobre o Armagedão (guerra de Deus onde 99,9% da humanidade será destruída e apenas as Testemunhas de Jeová serão salvas) e que Deus me iria aniquilar por ter abandonado a Sua organização. Ainda me encontrava sobre o domínio psicológico da seita.

 

Chegara o dia em que tinha de tomar uma decisão: voltar ou não. Fiz parte à minha mulher e aos meus amigos das minhas intenções de voltar para as Testemunhas de Jeová. Todos foram unânimes: “Se te irá fazer bem, talvez seja o melhor”. Como era possível aquelas pessoas que são diabolizadas pelas Testemunhas de Jeová, e tratadas como “os do mundo”, gente em quem não se pode confiar, pessoas que são usadas pelo próprio Satanás, recomendarem o meu regresso a uma religião que nem sequer elas acreditam? Não fazia sentido. Mesmo assim, tomei uma decisão: regressar.

 

Certo dia ao navegar na Net, decidi digitar o nome “Jeová”. Qual não foi a minha admiração quando verifiquei que existem um sem número de Sites dedicados ao tema. Muitos deles falavam de assuntos impensáveis aos meus olhos. Uns supostos erros da Torre de Vigia com encobrimento da mesma. Como ainda estava sobre influência das doutrinas Jeovistas, não acreditei em nada do que lia. Sabia que tudo o que estava ali, era apenas para denegrir a imagem das Testemunhas de Jeová, portanto uma mentira. Graças aos conselhos da minha esposa que costumava dizer que não se devia acreditar em tudo cegamente, partindo do princípio que tudo é mentira, sem primeiro verificar a veracidade de tais argumentos, decidi no dia seguinte voltar a Net.

 

O primeiro assunto que pesquisei foi sobre a ONU (Organização das Nações Unidas) e as Testemunhas de Jeová. Depois de um dia inteiro agarrado ao computador, verificando as informações, não podia acreditar no que lia. As Testemunhas de Jeová estiveram cerca de 10 anos ligadas a ONU. Nada haveria a dizer desse respeitável organismo internacional, criado para unir nações e apaziguar conflitos. Para a maioria das instituições religiosas, representa motivo de júbilo e orgulho. Mas não para as Testemunhas de Jeová. Elas são diferentes. Para os adeptos dessa denominação, um vínculo entre a sua sede e a ONU seria impensável, mais que isso, um insulto. Porquê? É simples: por décadas, os líderes da Torre de Vigia têm feito repetidos ataques morais à ONU nas suas publicações. Na verdade, tais ataques tiveram início em 1919, quando a ONU ainda não existia, mas a sua antecessora, a Liga das Nações, criada após a I Guerra Mundial. Essa atitude manteve-se após a II Guerra, com a criação das Nações Unidas. Durante todo esse tempo, a doutrina oficial das Testemunhas de Jeová, conforme ensinada pela sua liderança nos EUA, tem sido: a ONU representa a “fera cor de escarlate” retratada no livro bíblico de Apocalipse (ou Revelação, cap. 17, versículo 3), sobre cujo lombo se assenta uma meretriz. As Testemunhas crêem que tal “fera” simboliza o poder político reunido na ONU e a meretriz simboliza o poder religioso (em especial, a “cristandade”), aliado do primeiro. Para elas, a força de ambos origina-se do diabo, seu concebido e sustentador. Adjectivos como "repugnante", "detestável", "abominável"  e "blasfemo" foram repetidamente dirigidos à ONU desde a sua fundação, na literatura das Testemunhas de Jeová. Até mesmo a destruição desse organismo internacional por parte de Deus tem sido prevista e desejada por elas  durante décadas (segundo as suas crenças, as Nações Unidas haveriam de patrocinar, algum dia, uma agressão aos sistemas religiosos, culminando numa perseguição às próprias Testemunhas de Jeová). Diante desse quadro, era  normal que os adeptos da Sociedade Torre de Vigia reagissem a tal notícia com indignação e cepticismo. Se verdadeira, ela teria sérias implicações. A principal delas - a organização central das Testemunhas de Jeová teria traído cerca de 6 milhões de adeptos espalhados pelo mundo, por toda uma década.

 

Na minha pesquisa pelo mundo virtual da internet, sucederam-se em catadupa revelações até então inimagináveis. Quem das Testemunha de Jeová, teve conhecimento das falsas previsões desde o tempo de Charles Taze Russel (fundador da seita) para o Armagedão?


- Do envolvimento em ocultismo por parte dos líderes da Torre de Vigia, que acabaram envolvendo os demais adeptos por décadas a fio (o caso do espírita, Johannes Greber, entre outros)?

 

- Das crenças dos líderes da Sociedade em pseudo-ciências, bem como os seus ataques à medicina tradicional (vacinas, transplantes, uso de derivados de sangue, etc. expondo a vida das Testemunhas de Jeová desnecessariamente ao risco?

 

- Do perjúrio cometido na Bulgária, ao assinar um acordo com as autoridades daquele país em 1995?

 

- Do caso de mudança de cobrança pela literatura, cujo objectivo foi tão somente fugir aos impostos, depois de Jimmy Swaggart, um pastor de outra seita, apoiado pela Torre de Vigia judicialmente, ter perdido a sua causa em justiça?

 

- Da quebra de “neutralidade Cristã”, nos episódios envolvendo a “Declaração de Factos” e a vergonhosa carta a Hitler, bem como a aprovação de Rutherford (segundo presidente da sociedade Torre de Vigia), a compra de bónus de guerra, e o dia de oração em favor dos aliados da segunda guerra?

 

- Do caso de sonegação de impostos em França?

 

- Dos frequentes casos de pedofilia, ocultados pela Torre de Vigia? Etc., etc…

 

Durante trinta e cinco anos esconderam-me factos que só agora vim a descobrir. Senti-me traído, enganado e usado… Primeiro tentei verificar a veracidade de tais descobertas e só depois, tentei falar disso aos meus pais. Não queria que eles vivessem mais na ignorância. Tal escolha foi fatal para a minha pessoa. Fui intitulado de adorador do Diabo, mentiroso e de apóstata (termo usado a quem sai da organização por não apoiar as suas doutrinas).

 

Passaram-se meses de autêntico martírio. Só pensava numa coisa: como pude ser atraiçoado por uma organização que eu julgava ser a única representante de Deus? Sei que para alguns, será difícil abranger a dimensão de tal situação, mas foi toda uma vida que eu vi desperdiçada em nome de uma religião. Mais de 30 anos da minha existência foram perdidos a defender algo completamente dissimulado. Diariamente dava por mim a relembrar pormenores do passado dentro da seita, recordando as inúmeras vezes em que servi fielmente aquela organização. Não conseguia reter as lágrimas perante as descobertas diárias que ia fazendo nas minhas pesquisas. Todo o meu mundo a minha volta tinha-se desmoronado. Em quem acreditar agora? Sentia-me desprotegido e indefeso. Quem afinal tem a verdade? E Deus é mesmo Jeová? Fiquei com imensas dúvidas, e com um sem fim de perguntas. E agora, o que tenho de fazer e para onde tenho de ir?

 

Tive de reaprender a viver. Sempre que recordo esse período, comparo-me a um robot. Fui programado a pensar e a agir de uma determinada maneira. Mais de 30 anos de doutrinas castradoras fizeram de mim uma pessoa que não estava acostumada a pensar nem a fazer perguntas (afinal para quê, se todas as respostas estavam na literatura Jeovista). As minhas crenças ditavam toda a minha vida e eu era obrigado a obedecer as mesmas cegamente. Tive que ser reprogramado e aprender a viver em sociedade. Sabia que por exemplo se eu participasse numa festa de anos, Deus não me iria castigar por isso. Foi estranho festejar os meus próprios anos pela primeira vez aos 35 anos. Nunca ninguém me tinha cantado os parabéns. Foi um misto de alegria e tristeza… Lembro-me do meu primeiro acto para simbolizar a minha liberdade: comer uma rodela de morcela! Parece quase anedótico esta experiencia, mas para uma Testemunha de Jeová ingerir sangue é um pecado capital. Recordo-me que foi no São João, estava em cima da mesa algumas corricas de morcelas, olhei para as mesmas, peguei num palito e disse para a minha esposa: “já não tenho medo de comer isto”…

 

Todas estas descobertas fez com que gradualmente eu fosse mudando. Dei por mim a contemplar a vida de outra maneira e gostar da mesma de uma forma diferente, mais apaixonada. Aprendi que afinal é possível ter amigos fora da organização das Testemunhas de Jeová. Comecei a ler cada vez mais. Aprofundei o meu conhecimento sobre determinada matéria. Interessei-me por religião e hoje, graças as Testemunhas de Jeová e as suas doutrinas maldosas que visam apenas o medo e a repressão, deixou de fazer para mim sentido, a existência de qualquer tipo de Divindade. Acreditar na existência de um criador e defender algo superior ao homem, não tem mais cabimento. Sou um total defensor da evolução natural das espécies. Orgulhosamente apresento-me como Ateu.

 

Estimo toda e qualquer opinião, assim como também respeito toda e qualquer crença. Tenho sim repúdio por indivíduos que tentam impor algo a outros a qualquer custo, obrigando-os a aceitar as suas crenças como fazendo parte de uma suposta verdade suprema. Odeio fanatismos e enoja-me quem em nome da bíblia ou qualquer outro livro dito “inspirado” ousa amaldiçoar outros apenas e tão somente porque esses decidiram não acreditar no mesmo do que eles… Actualmente no meio de tantas certezas, existe uma que tenho como incontornável: fui Testemunha de Jeová por muitos e longos anos, mas sei que nunca mais lá voltarei nunca mais.

 

Hoje finalmente posso afirmar que sou livre e não estou preso a uma religião e seus líderes. O pavor de um qualquer cataclismo originado por um Deus não me mete mais medo. Não preciso seguir algum tipo de crença ou acreditar em algum Deus ou Deuses para ser detentor da moral e dos bons princípios.  Tudo que há de bom nas escrituras, como a regra de ouro, por exemplo, pode ser apreciado por seu valor ético, sem a crença de que isso nos tenha sido transmitido pelo criador do universo. 

 

Toda esta espécie de metamorfose não seria possível sem a cooperação de uma pessoa especial: a minha esposa. Foi ela que nos momentos mais difíceis sempre esteve do meu lado, apoiando-me sem mesmo talvez perceber muito bem até que ponto podia um homem estar tão dependente de uma religião. Foi a minha mulher que durante meses a fio aguentou os meus devaneios sobre as Testemunhas de Jeová. Foi a mesma que me viu triste, desesperado, desorientado e sem saber realmente o que deveria fazer, aconselhando-me sempre de maneira positiva. Foi ela que me “ergueu” e que tratou de me dar animo para recomeçar de novo. Graças a ela consegui enfrentar um dos piores momentos da minha vida. Mesmo depois de todas estas desventuras e sabendo o que realmente se esconde por trás da seita Testemunhas de Jeová, ela foi incapaz de os odiar ou até mesmo julgar. As atitudes da minha companheira ensinaram-me uma coisa: eu tinha de ser melhor que esses que se dizem “o povo escolhido de Deus”… Todos os que me rodeiam são unânimes: tudo isto tornou-me melhor enquanto Ser humano. Como costumava dizer o meu avô: há males que vêm por bem. Nada mais verdade…

 

Por tudo isto e por muito mais, obrigado. Amo-te.

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sinto-me:

Ellipsis a 17 de Agosto de 2011 às 21:03
Olá Justiceiro. Gostei muito do teu depoimento. Eu PESSOALMENTE me revejo em 80% deste depoimento. É incrível como a lavagem cerebral feita por esta organização nos faz uns cromos repetidos.

Fico feliz de estares completamente recuperado desta crise mental e de consciência.

Obrigado pela tua coragem de postares aqui este depoimento.

Um forte abraço.

Carla \"cunhada\" a 17 de Agosto de 2011 às 21:12
Muito bem dito! Parabéns!

Esponja a 18 de Agosto de 2011 às 00:56
Confesso que o teu período de descoberta e de adaptação não foi fácil para mim... ainda hoje e apesar de todo o conhecimento que tenho do funcionamento da seita, ainda me é difícil alcançar a profundidade da lavagem cerebral a que foste sujeito durante tantos anos!
Fui criada no seio de uma família que sempre incutiu nas suas crianças e jovens a sede do conhecimento, a vontade de chegar mais longe, onde o dialogo sempre foi uma constante, e onde nunca nos ameaçaram com a destruição ou a perda da "eternidade" se nos portássemos mal.... se tal acontecesse corríamos era o risco de levar uma valente sova!!!!
Provavelmente a família achou estranho tu não cantares os parabéns, e desejá-los a alguém sai a ferros... bem como a tua completa fascinação por festas (de anos, populares, convívios, Natal, Páscoa, etc ) e por receber presentes.... mas eu que TE CONHEÇO BEM sei que são fruto de uma privação de tudo durante 33 anos.
Não precisavas ter agradecido nada, porque se te amo só tinha de ter feito o que fiz, e sabes que sempre que precisares eu estou cá por ti.... e se o Mundo for destruído , bem Lobe , vamos ser destruídos juntinhos, eheheheh !!!
Amo-te aos pacotes

Claudia a 19 de Agosto de 2011 às 17:55
Parabéns. Este seu relato comoveu-me... Não tinha a ideia deste tipo de regras no meio das testemunhas de jeová. Afinal parece que não as conhece-mos bem! Continue com o seu blog.

Sara a 5 de Setembro de 2011 às 16:41
Parabéns pelo blog, ajudou-me a conhecer uma realidade completamente desconhecida e a curiosidade de saber cada vez mais sobre este tema!E como o saber não ocupa lugar e o conhecimento é fonte de crescimento e aprendizagem, continua!Beijinhos e "Ádeus" :D

Anónimo a 13 de Setembro de 2011 às 00:22
No fundo já conhecia esta história. Ao longo destes anos tenho-te acompanhado (umas vezes com mais frequência que outras), no fundo por termos em comum a repressão e obrigação religiosa. Confesso que ainda assim não tenho capacidade de compreender a magnitude daquilo a que foste sujeito. Ao ler este teu post parece algo saído de um filme qualquer sobre extra-terrestres- Só revela também o quanto os nossos olhos estão vendados, ainda que os tenhamos bem abertos e tenhamos sempre uma janela aberta para o Mundo.

Comento este post não para te dizer que me emocionei com ele, ou que não fazia ideia, ou que tenho muita pena. NÃO! Comento este post porque apesar de não te conhecer tens sido um grande amigo, que me fez rir e sorrir tantas vezes, com um sentido de humor fora de série e capaz de ver nas coisas mais estapafúrdias uma oportunidade de fazer alguéem mais feliz, ainda que só por um bocadinho.

E tudo isto meu caro amigo, para o bem e para o mal deves aos teus primeiros 35 anos de vida, Não digo que foi bom, mas talvez só assim saibas apreciar a vida de uma forma que a grande maioria jamais o saberá fazer.

Obrigada por partilhares connosco um pedaço grande de ti e obrigada por me ensinares mais um bocadinho.

Agora são 2kg de carne picada de porco, se faz favor e se não for pedir muito, passe na máquina duas vezes. lolololololol

Beijocas para ti e para a tua esposa linda (tenho andado tão longe daqui que ainda me hás-de explicar porque se chama ela esponja)...

Betty Boop a 7 de Dezembro de 2011 às 12:42

Olá justiceiro. Gostei muito do que lê aqui a tua história tocou-me principalmente
aquela parte aonde falas dos teus pais veio-me a lágrima aos olhos. É incrível o que a lavagem ao cérebro faz as pessoas mas felizmente tu encontraste uma
mulher espectacular que te apoio e apoia nesta situação. Eu pessoalmente quero
te agradecer do fundo do coração por me teres aberto os olhos e me teres
ajudado na questão do sangue, e me tirares todas as minhas dúvidas e por me
aturares (:


És um grande Homem mereces toda a felicidade do mundo! Um grande abraço beijinhos


Jussara a 24 de Abril de 2012 às 19:29
Muito boa a sua descrição de como é ser uma Testemunha de Jeová caro Justiceiro.no meu caso, sou"'órfã espiritual", estudo a Bíblia desde os meus 6 anos de idade e aos 15 decidi me batizar por livre e espontânea vontade, sendo que eu mesma desenvolvi no coração a vontade de servir plenamente a Jeová, servi por algumas vezes como pioneira auxiliar, mas de uns tempos pra cá, agora com 17 anos me desiludi muito com certas coisas nesta organização, tanto com respeito as regras quanto com relação a como tratam pessoas desassociadas..sabe eu mantinha contato com um membro desassociado mesmo sabendo que poderia sofrer punições isso por que uma amiga também de dentro da organização namora com ele escondido da família. e mesmo antes disso havia me apaixonado por um "mundano" e desde então venho me afastando da organização... sabe, sinto me perdida a respeito do que fazer..não sei se simplesmente fico inativa ou se faço uma carta de dissociassão, me vejo num beco sem saída por que eles tem cobrado muito de mim e insinuam o tempo todo que me envolvi em conduta errada e que preciso me confessar para obter uma adoração pura e o perdão de Jeová..preciso de uma luz

Justiceiro a 26 de Abril de 2012 às 01:28

Olá Jussara, boa noite.


Compreendo bem a sua situação. É difícil viver no seio de uma “religião” que está constantemente a observar os passos dos seus fiéis e sempre que seja cometida uma “falha”, lá estão eles, meros humanos como você e eu, a dizer o que se deve ou não fazer. A decisão de saída da Torre de Vigia é apenas e tão somente sua. Apenas lhe poderei dizer que desde que saí dessa organização sou uma pessoa muito mais feliz e ao contrário do que fazem crer, não me tornei um Ser humano miserável, nas garras Satanás…não. Vi que afinal existe vida fora da Torre de Vigia e que as pessoas do “mundo”, que as Testemunhas de Jeová tanto diabolizam, não são na verdade tão más assim… Descobri que os meus amigos “cá fora” são amigos verdadeiros e não pessoas que me amam porque tem que ser, porque a religião quer fazer passar a imagem de uma irmandade unida, na verdade porque são obrigados. No mundo, as pessoas pura e simplesmente são genuínas, se gostam, gostam, se não gostam, não agem de forma hipócrita só para criar aquela aparência de povo apegado.


Como bem sabe, é impossível sair da Torre de Vigia sem sofrer com isso. Mas acho que tem um ponto ao seu favor; se bem percebi, não tem família dentro da seita. Se decidir dissociar-se não terá que passar por ser psicologicamente agredida pelos seus familiares. Poderá conviver com eles normalmente, o que não acontece se eles forem Testemunhas de Jeová. Se tiver amigos dentro da organização, já sabe o que lhe espera… Mas isso talvez seja um mal menor comparado com a família. Existe também outra opção, mas isso cabe a cada um saber se tem ou não “estomago” para concretizar tal escolha. Se não quiser perder os seus amigos jeovistas, pura e simplesmente não faça nada. Continue a ir as reuniões e aos poucos e poucos vá deixando de frequentar as mesmas. Reduza as suas idas ao salão do reino e será apenas uma pessoa que está fraca na fé e uma inactiva, mas pelo menos os seus amigos poderão ainda falar consigo. Sei que esta última escolha é complicada para quem sabe dos podres da organização e que na verdade tem que frequentar as reuniões fazendo de conta que não tem conhecimento de nada e que concorda com tudo. Mas não é isso o que a sociedade Torre de Vigia pretende? Não obriga ela a que as pessoas tenham 2 personalidades e no fundo que age de forma fingida? É isso que a Watchtower cultiva.

Como já mencionei, só você poderá tomar a decisão certa, mas uma coisa lhe posso garantir: Deus não a castigará por ter abandonado as Testemunhas de Jeová…


Cumprimentos.

 

PS. Se precisar de mais algum tipo de esclarecimento deixo aqui o meu mail: otalhoeacidade@sapo.pt


MariaL a 27 de Maio de 2012 às 19:35
Olá Justiceiro,

Já tinha lido parte da sua história num fórum, mas creio que aqui está mais completa, certo?
É emocionante, por dois motivos diferentes.
Primeiro, porque tendo eu passado cerca de 30 anos nessa organização, o compreendo perfeitamente.  Também eu tive o meu primeiro bolo de aniversário depois dos 30  e mesmo assim, não consegui apreciá-lo devidamente por sentir-me culpada. Ou talvez não tenha sido o primeiro... Em criança fechava-me no quarto, com um queque ou pastel de nata e cantava os parabéns a mim. Lembro-me que também chorava.
Segundo, a sua história é uma linda história de amor. E isso sim, é ser verdadeiramente abençoado. Parabéns a si e à sua esposa!
Excelente iniciativa de dar o seu depoimento para que outros como nós possam saber que não são os únicos com esse tipo de sentimentos e que não somos ET´s.

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